segunda-feira, 8 de julho de 2013

Somos todos em mim

-- III --

  Percebi, antes dos demais, o que estava acontecendo, no momento em que finalmente parei. E nós, que me seguiam, pudemos ver meus ombros relaxarem, as mãos abrirem, enquanto eu desabava de joelhos no chão. Ficamos todos ali, parados, aguardando que me levantasse, esperando que mais uma vez me erguesse com a perna esquerda, como tantas vezes o fizera.
  Mas não desta vez.
  Observamos atentamente, todos nós, enquanto minhas mãos deslizavam até os coldres e sacavam os antigos revólveres - um para mim, um para o outro, dissera o mais velho - e, após um breve movimento do olhar entre as armas e o horizonte, jogavam ambos ao chão, levantando pequenas nuvens de poeira, sinais a serem levadas pelo vento para algum lugar distante.
  Mas o vento de repente parou, percebemos todos menos eu, que com o olhar muito além do que era visível, desfiz-me também da adaga que, já com marcas de ferrugem, carregava em minha cintura.
  Queria que me deixassem só por um momento, queria parar e finalmente descansar, deitar-me ali e aguardar o que quer que viesse em seguida, o fim, o começo, o infinito, o vazio.
  E assim me permiti tombar, sem que pudéssemos impedir, sem me proteger sequer do impacto no chão duro e seco do deserto, sentindo o gosto salgado da poeira, do sangue.
  Declarei, assim, a derrota.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Povo em Pé


   O tempo decorrido deixou ali a farta bandeja de frutos copiosamente cultivados. Foi necessário plantar, adubar, prover. Sobretudo soterrar. Ao findar os questionamentos sobrou espaço para a contemplação e dentre outros ali estava o fruto da meia-alma. 
   Foi trabalhando que teve a epifania: a outra - e nova - metade da alma lhe dizia que bastava um olhar diferente. Pois bem, como poderia antes ter visto um mesmo aspecto sob duas formas se possuía apenas um olho? 
   Agora anseia por ver além das sombras alegóricas de Platão. A resposta está nas profundezas, sugere a intrigante carta xamânica.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Uma estranha dança se desenvolve entre as peças nos quadrados pretos contra os brancos

Há pouco eu fui convidado
Para o baile do certo ou errado
Mas não poderei comparecer;
Ora, ainda tenho as minhas dúvidas

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sois

Traço de pincel sutil
Extrato da infinita astúcia dos deuses
Sois ciência e arte de um poeta ausente
Somos chaminés de aroma pão-de-ló
Cumes enevoados de montanhas que não choram
Sois vós tesouro sem dono
A metade de um caminho sem fim

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Atítulo

Um dia, numa conversa sobre nada, tu percebe uma verdade pontiaguda. O caso é: perceber que uma década, década, aquela medida de anos que a gente ouvia dizer-se de coisas demoradas, de pessoas que viveram bastante e que jogam essa medida na nossa cara e pesa mais que um coturno, enfim, uma década passou desde o dia em que tu, no caso eu, com seus incontáveis quinze anos de idade decide que já é crescido o suficiente para contrariar quase tudo que queiram ensinar, recusar conselho e palpite; o dia em que tu sabe que sabe das coisas e que qualquer crítica que vier é porque te subestimaram ou interpretaram errado. Dez anos passaram, se foram.
Dez anos com aquela miopia de todo dia, anos de ouvir música velha e de esperar pel'outro dia.
Tu percebe que naquela época não conseguia se imaginar com vinte e cinco, e de repente ter vinte e cinco é tão real quanto pensar que falta décadas pra chegar nos trinta e cinco, e tu ainda nem te acostumou com vinte e dois.
[...] aqui, acabei desistindo de chegar a algum lugar com um raciocínio que eu não sabia bem que estava fazendo. Quando parei pra pensar, cometi um erro e perdi o fio; de qualquer forma, escrito está o que eu pude escrever, pois ousei palavrear.
Talvez em breve eu continue a falar sobre isso sem saber, num outro texto qualquer sob algum outro pretexto.
Que chegue logo o dia em que meus pensamentos não esconderão mais as minhas ideias.

domingo, 5 de maio de 2013

Teach me...

...tell me, will I live forever?

terça-feira, 23 de abril de 2013

Pois

    Tempos faz que não sou tomado de assalto, vitimado por aquela agressão que atropela o sujeito que sente e que sabe; que joga ao chão o ser vivente; arranca carne; ceifa razão. Tempos foram em que me vi de abrir braços frente a ataques repentinos nunca explicados.
    Há tempos que palavreio e que no palavrear me perco; mergulho no que digo e no que não digo volto a superfície turbulenta que tanto quis exilar.
    Há poucos que sei dizer me entendem, há pouco eu diria entender.
    Que gosto bom tem lembrar de uma ideia que só se viu passar; colhê-la de volta nos teus braços, sentir o peso que tu mesmo nela cresceu.
    O que já interpretei como fuga, hoje descobri uma descoberta:
    Entupir as narinas e rasgar a pele; chafurdar nos pensamentos desordenados e abrir os olhos encharcados de novidade, condenados a perder um mundo inteiro no seu próximo piscar. Sair, pois, a saracotear.