Não era noite, tampouco era frio. No silêncio da vigília, eu não me sentia solitário; pelo contrário.
De passagem, dei de cara contigo e me olhando tu sorria.
Falo sobre esse encontro ainda fresco: breve e satisfatório, de uma estética ainda não arruinada pelos afazeres do tempo que passa sem pensar.
Lembro daquela outra ocasião como se há pouco tivesse ocorrido, porque de fato nunca a esqueci por muito tempo.
Não é com saudade nem com nostalgia que penso naquele dia, aquela noite.
Que bom encontrar em ti um sorriso singelo e honesto, simplesmente aparente, claramente inevitável.
Sei bem das idas e vindas que passaram por nós nesses anos todos, quase treze. Sei dos desejos malnutridos que sobrevivem na surdina, esperando pelo momento em que serão aceitos e finalmente assumidos.
Vagueio em curiosidade sobre a possibilidade e até mesmo a idade que teremos na próxima vez que nos olharemos como hoje, reflexivos.
Em outra vida.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Vi-me a te ver
segunda-feira, 2 de março de 2026
Refresco, brisa, novidade
Sedento por uma novidade, qualquer uma, olhava pela janela outra vez. Poderia sim alguém chegar, alguém chamar para ver o que estava acontecendo na rua. Poderia ocorrer um anúncio de meio frango na paróquia, promoção no supermercardinho, talvez até uma vaga de subemprego na indústria à beira da falência sua, mas não de seus donos.
O fato de que nada novo havia na última olhadinha não significa que na próxima não haveria de haver. Talvez alguma banda famosa lançasse um novo disco, ou um novo filme estivesse disponível nos confins dos catálogos.
Nada de novo de novo.
Tudo bem, esse dia iria passar e a noite traria descanso, algum entretenimento. Jogar um jogo, lavar uma louça, olhar jornal.
O fim de semana há de chegar e as promessas são muitas.
O fim do mês há de chegar e as esperanças são enormes.
O fim do ano vem chegando e o desespero bate à porta.
Em meio a largas janelas de poucas novidades, um pesado peso se abateu nas pálpebras, pesadas e enrugadas.
Mais uma década se arredonda para cima e os jovens não são mais jovens.
Mais uma palavra e a frase estaria
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Vinte e Seis
Esse é o ano mais novo em que já vivi. É muito novo.
Não tenho certeza se foi 26 ou 27, mas um dia ao ler minha própria idade ser descrita, em uma notícia sobre algum absurdo cotidiano, notei que usavam a palavra homem em vez de jovem. Até então era um jovem de 22 anos cometeu latrocínio, um jovem de 25 atropelou duas velhinhas, um homem de 41 foi assaltado. De repente um homem de 26 ou 27 fez alguma coisa em algum lugar – e amanhã será como se nunca tivesse feito.
Esse blog já tem 16. É mais do que eu tinha quando escrevi meu livro, de tiragem limitada a 1 exemplar. É quase como se eu nunca o tivesse escrito.
Não mais um debutante, quase um maior-de-idade; um blog meio moribundo que ainda não morreu mas hiberna. Não sei sei dizer se se mantém vivo apenas por aparelhos.
Enfim, nada a declarar além de que o tempo passa. E esse ano resolvi não esperar tantos e tantos meses até movimentar um pouco isso aqui. Espasmo também é movimento, afinal. Risos.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Rua da Rosquinha
Aquela rua onde vendia as rosquinhas, uma ladeira seca de terra e vento, escorregadia e boa pra deslizar na descida, ela não existe mais. No lugar onde ficava hoje tem um asfalto duro escuro separando casas altas renovadas, de portões fechados e jardins cuidados por profissionais. A gurizada que pedalava a bici e empurrava de volta pra subir a lomba hoje tá cada um num carro, janela fechada, ouvindo notícia. Sobem e descem com o mesmo esforço, movimentos mecânicos. Na calçada ninguém mais brinca.
A rosquinha foi deixada pra lá, ou talvez virou empreendimento. Será que é um baita negócio, que começou do nada e hoje vende em tonelada?
Embaixo de todas essas ruas tem terra enterrada. Embaixo dessa cidade muita coisa aconteceu e a gente nem sabe, só pode imaginar, desconfiar. E agora tá tudo tapado, exceto por algumas frestas. Quando chove nem precisa muito, alaga facinho apesar das obras e vá valão. Mas falta espaço pra terra respirar, lixiviar. A chuva lava tudo mas o asfalto fica; sujo. O portão fecha automático e na calçada as crianças passam apressadas indo trabalhar, cabeça baixa, passo apertado, procurando não pensar no passado.
terça-feira, 11 de junho de 2024
O Inço
Tuc, tuc, tuc, tic, tuc, tuc
Graças a deus deu uma parada ein, deus me livre aqui ainda tamo com sorte, escapamo, é
Tuc, tuc, tic, volta e meia a enxada erra o inço e acerta o asfalto puro, ou o concreto do meio-fio
Que tristeza toda vida agora isso, onde vamo parar desse jeito, e os político não fazem nada, nada nada
Tuc, tuc, tuc, clap, um estalo diferente ressoa no intervalo das enxadas. Não são palmas, ninguém na rua aplaude a obra deste trabalhadores: um tapa erra o mosquito e acerta a própria perna
Uh diabo, isso tá cheio ein, agora veio dá pra cá essa merda, deus me livre nunca vi tanta água!
O pequeno demônio voa furtivo e ataca de novo em outra parte, indefensável; não chega a ser visto mas sua presença é notada, sentida; cada trabalhador nas ruas se sente sugado sem saber como se defender.
O inço vai sendo partido golpe a golpe, sem pressa, num progresso que quase não se enxerga. Enquanto isso, o ônibus da turma arranca e para mais adiante, lá na esquina.
O inço é derrotado mas só na superfície; é pouca a terra que se enxerga na sarjeta e a maldita raiz desta praga está protegida. Lá embaixo do asfalto e da calçada, ela sobrevive, apesar da sua fragilidade e podridão, apenas por força dessa estrutura que a cerca.
Volta e meia a enxada risca o concreto e o barulho muda o rumo da conversa.
Eu penso sobre deuses e patrões, enquanto não participo da conversa, se é que ela existe, mas observo de longe, alheio. Compartilhamos alguns metros da cidade, alienados uns dos outros.
Sufocados pelo inço que nos cerca, pelo mosquito que nos suga. Nada mais do que arranhando a superfície e sentindo a dor nas costas.
A patrola grunhe, resmunga e ronca rouca do outro lado da rua: é hora de avançar.
Vamo lá, gurizada
segunda-feira, 29 de abril de 2024
Sobreviver pra viver depois, depois que tudo ficar bem, o momento que nunca virá... Acompanhado por diversos nadas, decorações de palavras bonitas de uma grande câmara de eco, de uma conexão com o vazio. Com nada. Depois de tanto buscar nos únicos lugares errados que restam, grandes desertos a céu aberto repletos de lixo... pessoas como figuras patéticas de miseráveis catadores, terminando de juntar o que sobrou do céu. Pés molhados de ter de caminhar nas próprias lágrimas de lembrar que um dia ouviu que a vida era mais do que humilhação. Mais um episódio de malhação, na academia financeira.
Sobrevivendo enquanto ainda restam as lembranças das vezes que a ficha não caiu. O dia que as lembranças se forem, pode dormir pra não mais acordar.
Esperança. Sobreviver a custo de quê?
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
Como não havia quem cuidasse das feridas das tropas, esse fardo obviamente caiu sobre mim. Encontrar o caminho seguro pela floresta, espreitar durante a noite para manter os inimigos longe - ou perto, conforme a conveniência. Até mesmo acalmar os homens de ânimos exaltados, quando a comida era pouca e as noites eram frias. Tudo que ninguém soubesse fazer sobrava para mim.
É o pagamento por querer liderar seu próprio bando, você poderia me dizer. Não estaria errado, claro. Mas a palavra querer talvez não seja a mais exata. Fui jogado nesta vida aventureira por uma catastrófica enxurrada, que praticamente destruiu minha vila natal. Foi quando descobri que meu lugar era aqui fora, onde as coisas podem mudar pela ação humana, e parti, sem um destino traçado.
Éramos poucos, meus companheiros ainda mais inexperientes do que eu. Procurávamos trabalho, aceitando qualquer coisa. Mas muitos se negaram a nos confiar qualquer ordem, diziam que não seríamos bons o bastante, numerosos o bastante.
Nessa terra rasgada pela guerra, brotam e se espalham os piores tipos de malfeitores. Aí nós encontramos a oportunidade de que precisávamos. Trabalho honesto, árduo e perigoso. Pois para cada saqueador acorrentado, outros tantos surgiam correndo atrás das caravanas, infernizando os pobres aldeões que tentam vender, na cidade, o fruto de seu suor e cumprir com suas obrigações. Sim, eles me lembram de casa, da minha velha família. E por isso eu luto com mais gana.
Mas se engana quem pensa que é só por isso que luto. Pois não há algo como cavalgar um cavalo bem treinado, vestir um colete quente e reforçado, batalhar em um torneio enquanto gritam seu nome na multidão. Sim, eu sei aproveitar as boas coisas da vida. E é também por isso que eu luto.
Hoje, está conosco uma moça que cuida dos prisioneiros; contratei um senhor que entende de geografia e sabe até ler mapas. Um capitão organiza nossa parede de escudos e já tenho o dinheiro separado para contratar um cirurgião de verdade. Cansei de costurar o couro dos homens, inclusive o meu próprio.
Me recordo que antigamente eu não sabia sequer o que falar antes de uma batalha. Apenas rangia os dentes e apertava o arco ou a lança até os dedos ficarem roxos. Por isso, a cada vez que me pego entretendo os vigias em torno da fogueira ou ouço a minha própria voz berrando aos homens o que fazer, conduzindo-os a mais uma vitória, percebo que finalmente entendi que o destino é uma besteira e que eu sei muito bem como abrir o meu caminho.
E onde os ventos estiverem espalhando o cheiro de medo e de morte, de glória e lucro, lá estarei eu, com meu estandarte tremulando.
por Joca Pastoril, senhor apenas de si, buscando seu lugar em um velho mundo
sexta-feira, 17 de novembro de 2023
Tanto blues
Não é possível falar, é impossível sentir. Não é razoável esperar assimilar qualquer sensação que seja. É nossa vocação de símia imitação a razão desse defeito. Defeituosa como essa frase que passou e o que passou? A palavra defeito se traduz de muitas formas erradas.
Ah, e os bichinhos que vivem no olho da gente nos ensinam a lição desde a primeira vez que os percebemos: qualquer perseguição resultará em fuga. Treinados pela geração anterior, somos macacos astrais que repetem os truques aprendidos. Volta e meia errando, aí é bom que dá uma ilusão de veracidade.
Nenhum supermercado satisfará nossos corações, dos incapazes de compreender nossa própria caixa de miolos. O que se passa ali dentro?
Ocupamos nosso tempo fazendo algo, algum trabalho, alguma atividade. Em geral por vontade alheia, por pura razão de sobrevivência.
Não é necessário aprendermos a entender como funciona essa cabeça peluda, então apenas alguns ilustres terão essa ambição e algum mísero sucesso parcial.
Mas ah! Sorte que alguns de nós deixaram para trás uns encaroçados versos; e de vez em quando nalguns deles se molda um significado que faz tanto sentido para um pobre símio cinzento como eu. Como um biscoito da sorte, um pastel de recheio surpresa. Aquele quentume bom que vem de saber que alguém esteve por aí pensando na mesma coisa; e que pelo menos um de nós soube o que fazer com isso.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
Ideal
Fica em pé, passa um cafezinho
Bota um rock pauleira na caixinha
Mas tem que ter bons graves
A vida é muito grave, gravíssima
A vida é terminal
Deguste como melhor puder
Acompanhado por um docinho, ideal
sexta-feira, 3 de março de 2023
Give me the wine you keep the bread
Não me parece muito surpresa que o sangue se assemelhe a determinadas bandeiras, símbolos e tudo o mais. O coração como um propulsor dele e um símbolo para as mais criativas bobagens que se possa imaginar. O amor, o romance, a emoção. Caldo mental e ideário para uma grande quantidade de material cultural para o bem ou para o mal.
Para alguns a bandeira nunca deve ser vermelha.
Com bastante frequência percebo como é fácil o estalar da língua, o movimento de uma boca cheia de dentes, esse movimento mecânico, se fazer arauto de frases chavões, eventualmente cheias de preconceito e mesquinhez, sem qualquer reflexão íntima acerca do que nos cerca. Íntima, sincera...
Se mão ferramenta não dá carinho, que dirá a boca ferramenta. Manipulada por vontades aquém.
Contra a vontade, esmagada entre as engrenagens apodrecidas de uma coisa grande. Não sei falar de outra forma, uma coisa grande. Digna de um terror cósmico.
Aí vem a igreja, o padre e uma porção de lixo. Pretenso semblante de liderança. Dizer o que é e o que não. O que se deve ou não. Pegar uma figura incerta, perdida nos anais da história, fazer uma confusão como quem usa uma máquina de fumaça, usá-lo como símbolo de alguma pureza doentia, pendurado em um pau, sangrando e perto da morte. Sangue esse representado com o vinho.
Até o padre bebe o vinho. O sangue de cristo. O cara que sempre me pareceu legal mas o fã clube me ataca desde a catequese. Catequista. Só de me lembrar, já dá um asco. Um bando de velhas azedas, repetindo o som dos grilhões que carregam consigo. Nunca me convenceram. Tentaram me reduzir à meretriz pecadora, indigna da benção de deus, aquele outro canalha, machista, sádico e enlouquecido. Afinal a mulher de nada vale, competindo com deus no milagre da criação. Onde já se viu? Ousadia, rebeldia, criticidade. Nada disso vale, pois faz com que acabe com o conto muito bem estruturado pra arrastar a humanidade a uma existência de miséria.
Ironicamente na época do catecismo eu comecei a menstruar. O tabu social. Até hoje mal falado.
Comecei a sangrar tal qual jesus, porém pelos motivos errados, segundo o ensinamento.
Sentia vir direto do ventre uma intuição infalível. Foi o que me norteou a adolescência até uma relação conflituosa com tudo ao meu redor.
Quando aprendi um pouco sobre de onde vem deus e a igreja, tudo meio que começou a fazer sentido.
A europa. Nome até bonito, elegante. Nome de uma lua que deve ser linda, se um dia fosse possível eu descobrir. Um continente que reflete exatamente todos os problemas da dita religião. Os reflete para o resto do mundo, uma grande mancha de lixo, um esgoto a céu aberto, uma putrefação entranhada em ideais miseráveis, racistas, criminosos, saqueadores, golpistas. Tudo isso com uma maquiagem da melhor qualidade, pra fazer parecer um reduto civilizatório, de boas práticas e exemplos de conduta.
Uma riqueza sim. Riqueza extraída de outros povos, através da violência e da guerra. Através de colonizações destrutivas, opressoras. Se a mentira que deus fez o homem a sua imagem e semelhança fosse verdade, eu poderia dedicar a eles um elogio: seriam, além de tudo isso, honestos. Dentro da visão desse deus aí. De mãos dadas. Provando o fato histórico de ser o berço do fascismo.
Bela contribuição! Que grande benevolência!
Mas sou obrigada a dizer que os povos assassinados por essa conduta, tendem a discordar.
Esse deus está morto.
Eu gosto de uma boa taça de vinho e um cigarro na outra mão. O que mais posso querer?
Entre uma tragada e outra do cigarro, quase corto o filtro. Os dentes cerrados de angústia, de nervoso e de raiva.
O pão eu não quero, fique com ele. O corpo não me interessa, apenas o sangue. Em reflexo à paisagem urbana, que suga toda a energia de quem a sustenta. Os mais pobres. Os que vem de baixo. E os que nunca vão conseguir seguir dicas de empreendedorismo de palco e histerias sobre fábulas incríveis de meritocracia e esforço próprio. Não. Sua própria carne mostra a mentira escancarada. Seus corpos mostram.
Portanto o pão eu não quero.
O sangue desce e a chuva se torna vermelha.
Me entristece saber-me ciente de misérias profundas e incontáveis, escancaradas por onde ando, em calçadas, em notícias e camas de hospital. Creio que se contasse as estrelas do céu, seriam poucas em comparação.
Que tipo de mulher enlouquecida e vazia me tornei ao longo do tempo?
O jornal do almoço mais uma vez serve o prato principal. Ao molho de palavras chave. Seriam notas frutadas, mas nesse caso são 'notas de posicionamento', pedidos de não-desculpas, culpando as vítimas por sua situação desumana causada pelas ações sanguessugas de gente merda. Se o prato principal é a escravidão mais uma vez, o que será da sobremesa?
Povo amortecido e castigado por uma existência insana infelizmente não é tão difícil de agradar.
Há um limite em algum lugar em algum tipo de horizonte.
As mentiras começam a saturar.
O mar das finanças está podre há tempos.
Deus está morto e fedendo.
A jangada de pedra que navega nesse esgoto já não mais suporta tanto tempo vagando.
Será que ela tem data de vencimento?
A dor do chicote que estala é sempre disfarçada de alguma bobajada sobre mercado, política ou individualismo.
Uma constatação ainda salva, como um grito ensurdecedor a quem quer que seja que não consiga por uma razão ou outra enxergar nada: Olha pra isso e me diz que funciona! Está lançado o desafio!
E então, separemos aqueles que já morreram por completo, por dentro e por fora.
Não dá mais.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023
Eu lembro
Eu lembro quando pequena meus pais me ensinando coisas básicas. O básico. O básico para eles. Vindos de uma outra geração, com todos os seus vícios e ignorâncias. Não é uma crítica. Assim como eles, eu também vou passar por isso se um dia tiver filhas ou filhos. Vou tentar ensinar o que é básico para mim, e eles vão ver com seus olhos um pouco mais originais que os meus, assim como olho com meus olhos mais originais que dos meus pais.
Me ensinaram a não mentir, a evitar a mentira. É como se fosse um apelo, para que eu possa corrigir os erros de seus caminhos tortuosos que foram obrigados a seguir em função das circunstâncias. Como se eu sozinha pudesse endireitar uma tortuosidade iniciada em um tempo que já se perdeu de vista. Ao menos para nós. Como se eles percebessem a podridão inerente a todo um sistema e, se contorcendo, lutando, se debatendo, tal qual um louco em uma camisa de força, tentando gritar em silêncio para mim, para ninguém mais ouvir suas heresias perante essa religião putrefata e decadente, que escraviza, que propaga miséria, contempla e estimula a violência, que deprime e vicia, para que ninguém pudesse os dedurar perante os algozes, capatazes, ou capangas... Para que não os apontem os dedos e lhes digam que são fracassados nessa jornada triste.
Eu lembro de não mentir. Fui ensinada com sucesso até um certo ponto. Até me deparar com a realidade do mundo, me deparar com visões e clarezas que por muito tempo não tive como compreender ou como lidar com contradições tão gritantes às quais não há outra forma de escapar senão inventando fábulas miraculosas, histórias lisérgicas ou lendas falidas.
Há quem diga que estou me referindo à outras realidades, do outro lado do mundo, lá onde tem gente errada que são inimigos dos valores morais, da decência ou sei lá mais do quê. O pessoal não civilizado.
Eu rio. Um riso forçadamente exagerado a fim de extravasar a minha raiva e manter um pouco da minha sanidade, quase sem perceber como uma defesa contra mim mesma. Porque se vou seguir minhas vontades, não vai ser legal. Ou bonito.
Não. Não me refiro a ninguém mais. Ocidente e civilização. Ora, se deus existisse para ver toda a sua obra nessa forma máxima, seu sorriso só se igualaria a quantia de mesquinhez, miséria e cinismo de todos aqueles que ousem seguir seu caminho. Se tudo isso, ou boa parte, é a mando de deus, é a prova definitiva de que eu estava certa desde a minha adolescência. Estava certa desde que decidi seguir por mim mesma aquela determinada intuição, que eu não entendia muito bem de onde vinha mas que parecia ser sincera, ora quem diria!? Um nível de sinceridade que não vem de deus, mas de uma mera pecadora, condenada a ser queimada viva em outros tempos, uma sinceridade que urge o questionamento mais básico: por que existe fome se tem excesso de alimentos?
É diferente do que deveria fazer pela própria sobrevivência, mentir para mim mesma e para os outros, de um lugar desconhecido surgia essa desconfiança legítima. Eu sei que outros também a sentem. Uma pena que na maioria dos casos é em uma cama de hospital com o pé já na cova, vendo na própria imaginação o resumo da sua vida vivida em cima de um engano muito bem trabalhado.
Precisa ser de deus. Não seria da ciência, da intuição ou meramente de uma observação dos arredores. Essa ladainha toda precisa vir de deus. Precisa ser um conto místico, uma predestinação baseada em absolutamente nada. Do contrário não há nada que sustente as teses. A realidade não sustenta, a ciência tampouco e a intuição nos diz a vida inteira que está errado. Ora, às vezes até sentimos o cheiro!
Eu lembro de olhar para o horizonte e ver uma espécie de vingança fermentando. O tempo passa e a história é um processo. Quem sabe um dia? Tal qual uma chuva refrescante, onde resolvi me banhar em um dia quente, imagino que a sensação vai ser a mesma quando vier o revés, quando vier a paga. Quando as mentiras diárias não mais forem suportáveis. Quando o mercado desaparecer do imaginário ativo tal qual o fantasma sádico que ele é, provedor de fome e pobreza, que se diz conhecedor dos destinos e soluções.
Quando essa jangada de pedra que navega esse oceano de esgoto das finanças internacionais finalmente afundar. Enfim, quando o trabalhador reconhecer em tudo que existe o fruto de suas próprias ações, a sua própria riqueza, quando se reconhecer dono daquilo que ainda lhe é tomado, através de furto descarado, por aqueles poucos que se insistem superiores aos demais. Velhos brancos, múmias, safados e bandidos, reis e rainhas de reinos falidos, criminosos e saqueadores.
Eu lembro de brindar este dia, em meus atos de rebeldia vazia, como quem espera o retorno de um bom amigo, uma boa companhia.
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
Há preço
É melhor você se comportar.
É bom que se aquiete, se alimente e se limpe.
Calmamente deite em silêncio: boa noite.
Cuidado com o que sente, é melhor não protestar.
Eu paguei pelos meus direitos.
Obedeça.
Agora parece absurdo.
Geladas e rígidas; correntes não podem constituir um abrigo.
Num ninho de serpentes, as cobras querendo cobrar.
Já chega.
Nem mais um pio.
Não há deus.
Tchau.
quarta-feira, 24 de agosto de 2022
Alguma emoção cívica ao ouvir o hino nacional?
Uma família de retardados em uma posição de poder, praticando crimes de modo quase diário. Um velho idiota dono de uma loja absolutamente patriótica, patriota para os Estados Unidos da América. Um presidente. O menor presidente do mundo. O mais fanfarrão no pior sentido possível. Um criminoso, um assassino. Propagador de pseudo-ciências, assuntos falsos e violência sem sentido. Pois afinal existem muitos inimigos do Brasil, todos querendo implantar o comunismo a qualquer custo dentro de uma idéia ridícula e paranóica suportada por outro velho ainda mais ridículo que odeia o sus, mora nos EUA mas no primeiro sinal de saúde frágil vem ao Brasil se tratar exatamente no lugar que mais despreza, pois afinal o país desenvolvido onde mora não tem nada parecido com o sus, e lá precisa pagar caro por saúde, assim como ele julga ser o "justo" a ser feito. Não com ele, mas com a maioria pobre do Brasil que por sinal já banca quase tudo o que é feito por aqui. Bolsonaro e Olavo de Carvalho, que dupla. Haja chapéu de alumínio.
Claro, vão me dizer que 'futebol, política e religião' não se discutem. Por isso que a religião é quem manda, a política vira futebol e o futebol serve de sobremesa no jornal do almoço. Um anestésico pro povo avulso, depois de uma enxurrada de merda, causada pelo protagonismo do mito, uma merda, um xurrio, tão grande a ponto de respingar pra fora do brasil. Mas daí é muito legal, porque além de ser uma piada sem graça aqui dentro, vira uma piada ainda mais sem graça lá fora. Afinal, se relacionar bem com outros países não cabe para o menor presidente do mundo.
Semana passada fiz a segunda dose da vacina. Sou privilegiado. Diferente de um tio meu, que foi entubado e faleceu. Diferente de vários amigos e amigos de amigos. Porque o governo patriota achou por bem fazer esquemas de compra de vacinas, fazer piada com quem tem falta de ar e atrasar vacinas até mais baratas. Sem falar em usar os próprios brasileiros como cobaias pra um remédio que não serve para o contexto, acusando outros de fazer exatamente o que eles fizeram com o tema: politizar. Acontece que para quem diz odiar a política é exatamente assim que funciona, não é porque odeia a política ou não quer ver política, mas busca uma política bastante específica. Nesse caso, a pior possível.
Esse brasil profundo que surge do esgoto na verdade não é nenhuma novidade. Todo o fedor da graxeira já estava presente antes só não encontrava apoio oficial. Tava escondido nas piadinhas em churrascadas de domingo, nos chavões habituais preconceituosos.
Então é muito conveniente que política e religião não se discute. Uma espécie de censura disfarçada de defesa de bons valores. Como acusam o bicho papão do comunismo de fazer, mas é como disse Leonel Brizola, só é capaz de ver nos outros os próprios vícios, as próprias mazelas. Nesse viés é ainda mais conveniente que a miséria volte e se faça presente. Senão quem eu vou ajudar e tirar uma selfie? Fazer a boa ação do dia? Ou ainda melhor, usar os problemas socias descontrolados pra responsabilizar os outros pela minha incapacidade de governar ou pensar em soluções.
Não.
Nenhuma emoção cívica ao ouvir o hino nacional.
segunda-feira, 4 de abril de 2022
Existe no calendário mais do que colecionar aniversários
Não tenho o menor interesse em viver uma vida sem drama. Na década passada, esse infinito montante temporal, eu choramingava por qualquer coisa. Bem que eu estava certo, não devia ter mudado de costume, quis ser prático, bola pra frente, e aqui agora me encontro, dez anos passados e do que me lembro? Parece que foi ontem que tive 25.
Ei de voltar a esses métodos. Deve-se sentir outras dimensões, nem que sejam inventadas, nem que seja pelo malefício de um tropeço, fazer o mundo girar, andar caminho errado.
Sim, quis viver a vida com praticidade, pensando sempre só no que importa e assim canalizando pensamentos e ações para aquilo que benéfico me pode ser. Engano! Estupidez! Isso leva a somente um lugar, que é a cova! E dela me aproximo cada vez fazendo menos drama. Aproximava, melhor dizendo.
Ainda não sei por onde recomeçar. Mas há que se espernear. Espernearei!
Saúde!
Às vezes, durante uma época conturbada, em uma meditação ou uma conversa, alguns pensamentos se apresentam diante de nós com uma clareza surpreendente. Como se eles boiassem em uma água que repentinamente se acalmou. Nessas ocasiões, é possível olhar cada um dos problemas que estão nos perturbando sem que tivéssemos nos dado conta até então. Podemos encará-los e notar como são pequenos, como um pato de borracha; ou médios, talvez um pouco pesados, mas muito menos escorregadios do que se tentássemos pega-los em meio a água agitada e borbulhante.
Havemos de respirar fundo e nos refrescar.
terça-feira, 22 de março de 2022
Expurgo
Belisco essa pequena camada criada sobre a pele, machucando a minha unha: um corselete de couro, feito para que algumas coisas não pudessem entrar, perpassar minhas defesas, invadir meu sistema
Como as guaritas de vigia daquela crônica do Verissimo.
Ó, tragédia anunciada somente em retrospecto
Há mais de dez anos tentei escrever sobre um homem: era uma espécie de guerreiro, talvez um cavaleiro.
Ao final de uma década de experimentação de sofrimentos, de tentar se defender; ele era incapaz, também, de utilizar seu tato.
Meu gibão de peles: dentro dele, meus pensamentos, sentimentos cozinharam feito uma criança esquecida num carro; desmancharam feito repolhos cozidos noite a dentro.
O sapo que não saltou quando a água ferveu
Ou o sapo da manteiga, como era a história?
Quando eu percebi que o remédio que me estabilizava fazia exatamente isso, eu não soube o que fazer.
Me sinto podado, aleijado de uma capacidade gutural de sofrer, que antes me servia tão bem como forma de conseguir viver feliz
Numa ausência de luz e sombra, venho tateando com a mão dormente, tropeçando na mobília velha da minha rotina.
Mesmo este texto é um raro acontecimento. Saber do que me aconteceu não significa ser capaz de evitar que isso me tome novamente conta. Saber não basta.
Este momento em que estou aqui, expurgando, é um raro buraco numa planície devastada. Um furo no gelo por onde um canadense pesca algum peixe. Mais gelado do que numa peixaria
Três vezes essa semana eu pesquei os olhos, digo pisquei.
Fechei com alguma força e esperei sentir algo, chorar seria ótimo.
Mas nada.
É um preço pesado por não arrancar diariamente os cabelos.
Tive que me fadar a viver em anestesia.
Existe um bando de malucos seguindo um outro pior. O pior presidente de todos os tempos.
Meu corselete de couro batido, surrado de tanto ser exposto a essa loucura, esse absurdo.
Não é a loucura de andar numa montanha russa invertida, que nos faz sentir como numa máquina de lavar roupa – tudo com a devida segurança
É uma sandice de comer merda só porque querem ter o bafo mais fedido de todos os tempos.
Fervo por baixo das peles, tentando evitar uma explosão
A pressão aumenta até que o lado de dentro se torne insuportável
Ando cabisbaixo e não muito animado
Vivendo sem respirar direito, esperando dias melhores
Como alguém que sai pra pescar
com uma rolha enfiada no cu
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
Nunca importou
Havia tempo demasiado.
Ou pelo menos assim eu sempre gostei de pensar que já havia decidido deixar de ser uma tola. Mas é no curto espaço de tempo, como entre um cigarro e outro, que tudo o que você tem de mais certo na vida lhe escapa por entre os dentes. Lhe escapa através dos dedos. Movimentos que dia após dia vão perdendo a habilidade que uma vez pareceu ser natural, incessante e sem esforço. Estabilidade.
Acho que já havia me acontecido antes. Parte de mim sempre se recusou a aceitar.
Que era ilusório e sempre foi.
Acho também, que em todas as vezes eu mantive a mesma pergunta presa aos lábios, senão assim, de que outra forma seria?
Que jeito, método, habilidade, teria a capacidade de dar conta do que insistimos em ser, incessantemente?
Não somente macacos, mas também pássaros, transmigratórios.
Dar cabo de algo que nem sequer se imagina a existência, nem mesmo no inconsciente. Parece fugir à compreensão, ou pior, a compreensão ser impossível, como em um terror cósmico.
Sonhei que estava em um bar, tentei fumar, tentei beber. Já não conseguia. Olhei para o fundo do copo vazio e o reflexo me mostrava no fim da vida, tendo o fôlego roubado por um súbito entendimento.
Todas as pessoas em volta me apontavam. Elas me diziam que eu era a única chance, que eu poderia ter consertado tudo: Quase como uma cena de um filme de ficção utópica, eu poderia ter sido perfeita, flutuando pelo espaço em uma redoma iluminada.
Ao mesmo tempo que apontavam, aos berros me julgavam e me xingavam por ter falhado. Senti todas as dores do mundo, desde o morador de rua até o pobre de espírito dono de coisas e pessoas, uma completa perdedora.
Não duraria para sempre é claro, mas a dor fazia vezes de mestre ilusionista.
Me senti novamente naquele lugar com uma vista privilegiada da cidade e o velho chorume em forma de organização humana.
A cidade sempre foi maior que eu e ela iria me esmagar mais cedo ou mais tarde.
Vozes isoladas me tinham em uma alta estima.
E por quê então eu me sentia como a pior coisa do mundo?
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
Malditos milicos
O quanto incomoda uma estampa. Uma camiseta vermelha, a cor proibida, ensaiando um grito incessante que está presente na mente de todos mas sufocado por muitos.
O que te sufoca senão a estafa de ter que ver a mesma coisa todo santo dia? A crença de que é assim mesmo e assim foi desde sempre e pra sempre?
Mas é isso né... sempre a crença nisso e naquilo, nunca é sobre o que se vê e o que se sente, mas sim sobre algo que alguns poucos acreditam e empurram com socos e pontapés na vida dos outros.
Alto lá! Política aqui não!
Claro, aqui não pode. Não posso conversar com os amigos. Não posso conversar com a família. Não pode política nos jogos. Não pode política no esporte. Não pode na música. Não pode política na escola.
Aí o negro segue como escravo, aí a mulher segue violentada, o homem explorado, o homossexual agredido e morto, o pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico. Do índio nem se fala.
O médico herói quando salva e o policial herói quando mata. Todos tementes a deus.
Adeus.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Olho mágico
Instala-se numa porta ou coisa parecida, com a ideia de olhar sem ser visto
Sem precisar abrir a porta, também, devido aos perigos
É um pequeno túnel, fortemente distorcente
Feito para olhar a curtas distâncias, a distorção fodida rola quando se tenta olhar longe através dele
Meio que como usar um binóculo ao contrário
Tudo tão pequeno e tão distante
Espremido
É claustrofobicante
Eu sei que é muito mais fácil e conveniente esquecer
Olhar em frente, bola pro mato
Pois penso nessas coisas que agora são recentes
E que um dia serão memórias distantes
Como olhar pelo olho mágico e tentar ver
do outro lado da rua
Quem é aquela gente ali atravessando?
Eu também já pisei lá fora
Até me lembro como era, mais ou menos
É tudo tão pequenino
Confuso
Me dou conta de que essas coisitas não serão lembranças borradas
Nem recordações esmagadas,
como vistas por um pequeno túnel, fortemente distorcente
Menos que isso
Nem vou me lembrar do que eu tinha ido buscar na cozinha
quinta-feira, 28 de outubro de 2021
Maionese e Catiupe
É como estar gripado. Pelo menos alguns sintomas poderiam ser comparados. Será mesmo uma doença, ou será só invenção? Auto diagnosticar é ainda assim um diagnóstico? Doutor, de alguma enfermidade eu sofro, disso tenho certeza. Talvez seja algo novo, quem sabe.
Sabe como quando a gente come e a comida não tem gosto, parece que é um sacrifício engolir? A gente toma um café e parece água suja. Serve um omelete e enche de catchup, pra ver se pega no tranco. Cuca com maionese. Alguma coisa tem que sentir, se não dá aquele tempero delicioso de um dia fresco ensolarado, que seja a descarga da indústria direto no nosso prato.
Faço, faço academia sim. Três dias por semana, pelo menos, alguns dias a mais só de caminhada. Eu adorava fazer exercícios pra ganhar resistência, sabe. Hoje em dia faço só o básico mas tá de bom tamanho. Perdi vários quilos, sim. Não sei se é a dificuldade de engolir.
Quando eu venho aqui, parece que passa um pouco esse torpor. É, aprendi a palavra só pra poder descrever a sensação. Então, depois eu vou embora me sentindo aliviado, como se tivesse entendido a diferença de estar bem e não estar. Aí eu sinto realmente a satisfação aquela. Que nem comer uma carbonara bem feita, gosta? Não tem como não, né. Por uns dias, às vezes mais ou menos, talvez semanas, é como se a gripe passasse. Um espirro ou outro, de vez em quando. Outro dia uma tosse. Dormência no pé. Os sintomas vão voltando sem que eu sinta. Eu espirro e em vez de desejar “saúde”, tentam assaltar um pouco do tempo que me resta. É assustador, confesso. Até que vem uma manhã refrescante e eu noto que ainda me sinto abafado. Claramente, sabe. Aí eu percebo que voltou. Será que tem a ver com ficar demais em casa? Dá pra continuar depois? Tenho outro compromisso agora.