sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Vinte e Seis

 Esse é o ano mais novo em que já vivi. É muito novo.

Não tenho certeza se foi 26 ou 27, mas um dia ao ler minha própria idade ser descrita, em uma notícia sobre algum absurdo cotidiano, notei que usavam a palavra homem em vez de jovem. Até então era um jovem de 22 anos cometeu latrocínio, um jovem de 25 atropelou duas velhinhas, um homem de 41 foi assaltado. De repente um homem de 26 ou 27 fez alguma coisa em algum lugar – e amanhã será como se nunca tivesse feito.

Esse blog já tem 16. É mais do que eu tinha quando escrevi meu livro, de tiragem limitada a 1 exemplar. É quase como se eu nunca o tivesse escrito.

Não mais um debutante, quase um maior-de-idade; um blog meio moribundo que ainda não morreu mas hiberna. Não sei sei dizer se se mantém vivo apenas por aparelhos. 

 Enfim, nada a declarar além de que o tempo passa. E esse ano resolvi não esperar tantos e tantos meses até movimentar um pouco isso aqui. Espasmo também é movimento, afinal. Risos. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Rua da Rosquinha

Aquela rua onde vendia as rosquinhas, uma ladeira seca de terra e vento, escorregadia e boa pra deslizar na descida, ela não existe mais. No lugar onde ficava hoje tem um asfalto duro escuro separando casas altas renovadas, de portões fechados e jardins cuidados por profissionais. A gurizada que pedalava a bici e empurrava de volta pra subir a lomba hoje tá cada um num carro, janela fechada, ouvindo notícia. Sobem e descem com o mesmo esforço, movimentos mecânicos. Na calçada ninguém mais brinca.

A rosquinha foi deixada pra lá, ou talvez virou empreendimento. Será que é um baita negócio, que começou do nada e hoje vende em tonelada?

Embaixo de todas essas ruas tem terra enterrada. Embaixo dessa cidade muita coisa aconteceu e a gente nem sabe, só pode imaginar, desconfiar. E agora tá tudo tapado, exceto por algumas frestas. Quando chove nem precisa muito, alaga facinho apesar das obras e vá valão. Mas falta espaço pra terra respirar, lixiviar. A chuva lava tudo mas o asfalto fica; sujo. O portão fecha automático e na calçada as crianças passam apressadas indo trabalhar, cabeça baixa, passo apertado, procurando não pensar no passado.

terça-feira, 11 de junho de 2024

O Inço

Tuc, tuc, tuc, tic, tuc, tuc
Graças a deus deu uma parada ein, deus me livre aqui ainda tamo com sorte, escapamo, é
Tuc, tuc, tic, volta e meia a enxada erra o inço e acerta o asfalto puro, ou o concreto do meio-fio
Que tristeza toda vida agora isso, onde vamo parar desse jeito, e os político não fazem nada, nada nada
Tuc, tuc, tuc, clap, um estalo diferente ressoa no intervalo das enxadas. Não são palmas, ninguém na rua aplaude a obra deste trabalhadores: um tapa erra o mosquito e acerta a própria perna
Uh diabo, isso tá cheio ein, agora veio dá pra cá essa merda, deus me livre nunca vi tanta água!
O pequeno demônio voa furtivo e ataca de novo em outra parte, indefensável; não chega a ser visto mas sua presença é notada, sentida; cada trabalhador nas ruas se sente sugado sem saber como se defender.
O inço vai sendo partido golpe a golpe, sem pressa, num progresso que quase não se enxerga. Enquanto isso, o ônibus da turma arranca e para mais adiante, lá na esquina.
O inço é derrotado mas só na superfície; é pouca a terra que se enxerga na sarjeta e a maldita raiz desta praga está protegida. Lá embaixo do asfalto e da calçada, ela sobrevive, apesar da sua fragilidade e podridão, apenas por força dessa estrutura que a cerca.
Volta e meia a enxada risca o concreto e o barulho muda o rumo da conversa.
Eu penso sobre deuses e patrões, enquanto não participo da conversa, se é que ela existe, mas observo de longe, alheio. Compartilhamos alguns metros da cidade, alienados uns dos outros.
Sufocados pelo inço que nos cerca, pelo mosquito que nos suga. Nada mais do que arranhando a superfície e sentindo a dor nas costas.
A patrola grunhe, resmunga e ronca rouca do outro lado da rua: é hora de avançar.
Vamo lá, gurizada

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Sobreviver pra viver depois, depois que tudo ficar bem, o momento que nunca virá... Acompanhado por diversos nadas, decorações de palavras bonitas de uma grande câmara de eco, de uma conexão com o vazio. Com nada. Depois de tanto buscar nos únicos lugares errados que restam, grandes desertos a céu aberto repletos de lixo... pessoas como figuras patéticas de miseráveis catadores, terminando de juntar o que sobrou do céu. Pés molhados de ter de caminhar nas próprias lágrimas de lembrar que um dia ouviu que a vida era mais do que humilhação. Mais um episódio de malhação, na academia financeira.
Sobrevivendo enquanto ainda restam as lembranças das vezes que a ficha não caiu. O dia que as lembranças se forem, pode dormir pra não mais acordar.
Esperança. Sobreviver a custo de quê?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

 

Como não havia quem cuidasse das feridas das tropas, esse fardo obviamente caiu sobre mim. Encontrar o caminho seguro pela floresta, espreitar durante a noite para manter os inimigos longe - ou perto, conforme a conveniência. Até mesmo acalmar os homens de ânimos exaltados, quando a comida era pouca e as noites eram frias. Tudo que ninguém soubesse fazer sobrava para mim.

É o pagamento por querer liderar seu próprio bando, você poderia me dizer. Não estaria errado, claro. Mas a palavra querer talvez não seja a mais exata. Fui jogado nesta vida aventureira por uma catastrófica enxurrada, que praticamente destruiu minha vila natal. Foi quando descobri que meu lugar era aqui fora, onde as coisas podem mudar pela ação humana, e parti, sem um destino traçado.

Éramos poucos, meus companheiros ainda mais inexperientes do que eu. Procurávamos trabalho, aceitando qualquer coisa. Mas muitos se negaram a nos confiar qualquer ordem, diziam que não seríamos bons o bastante, numerosos o bastante.

Nessa terra rasgada pela guerra, brotam e se espalham os piores tipos de malfeitores. Aí nós encontramos a oportunidade de que precisávamos. Trabalho honesto, árduo e perigoso. Pois para cada saqueador acorrentado, outros tantos surgiam correndo atrás das caravanas, infernizando os pobres aldeões que tentam vender, na cidade, o fruto de seu suor e cumprir com suas obrigações. Sim, eles me lembram de casa, da minha velha família. E por isso eu luto com mais gana.

Mas se engana quem pensa que é só por isso que luto. Pois não há algo como cavalgar um cavalo bem treinado, vestir um colete quente e reforçado, batalhar em um torneio enquanto gritam seu nome na multidão. Sim, eu sei aproveitar as boas coisas da vida. E é também por isso que eu luto.

Hoje, está conosco uma moça que cuida dos prisioneiros; contratei um senhor que entende de geografia e sabe até ler mapas. Um capitão organiza nossa parede de escudos e já tenho o dinheiro separado para contratar um cirurgião de verdade. Cansei de costurar o couro dos homens, inclusive o meu próprio.

Me recordo que antigamente eu não sabia sequer o que falar antes de uma batalha. Apenas rangia os dentes e apertava o arco ou a lança até os dedos ficarem roxos. Por isso, a cada vez que me pego entretendo os vigias em torno da fogueira ou ouço a minha própria voz berrando aos homens o que fazer, conduzindo-os a mais uma vitória, percebo que finalmente entendi que o destino é uma besteira e que eu sei muito bem como abrir o meu caminho.

E onde os ventos estiverem espalhando o cheiro de medo e de morte, de glória e lucro, lá estarei eu, com meu estandarte tremulando.



por Joca Pastoril, senhor apenas de si, buscando seu lugar em um velho mundo

 

 


 


sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Tanto blues

Não é possível falar, é impossível sentir. Não é razoável esperar assimilar qualquer sensação que seja. É nossa vocação de símia imitação a razão desse defeito. Defeituosa como essa frase que passou e o que passou? A palavra defeito se traduz de muitas formas erradas.
Ah, e os bichinhos que vivem no olho da gente nos ensinam a lição desde a primeira vez que os percebemos: qualquer perseguição resultará em fuga. Treinados pela geração anterior, somos macacos astrais que repetem os truques aprendidos. Volta e meia errando, aí é bom que dá uma ilusão de veracidade.
Nenhum supermercado satisfará nossos corações, dos incapazes de compreender nossa própria caixa de miolos. O que se passa ali dentro?
Ocupamos nosso tempo fazendo algo, algum trabalho, alguma atividade. Em geral por vontade alheia, por pura razão de sobrevivência.
Não é necessário aprendermos a entender como funciona essa cabeça peluda, então apenas alguns ilustres terão essa ambição e algum mísero sucesso parcial.
Mas ah! Sorte que alguns de nós deixaram para trás uns encaroçados versos; e de vez em quando nalguns deles se molda um significado que faz tanto sentido para um pobre símio cinzento como eu. Como um biscoito da sorte, um pastel de recheio surpresa. Aquele quentume bom que vem de saber que alguém esteve por aí pensando na mesma coisa; e que pelo menos um de nós soube o que fazer com isso.



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Ideal

Fica em pé, passa um cafezinho
Bota um rock pauleira na caixinha
Mas tem que ter bons graves
A vida é muito grave, gravíssima
A vida é terminal
Deguste como melhor puder
Acompanhado por um docinho, ideal