segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Transbordar

Insuportável é uma expressão que não se limita a descrever sofrimento.

Há sensações que não cabem nas nossas mãos, nem mesmo em forma de concha.

É uma analogia óbvia e até meio boba.: eu gosto de dirigir mas também gosto muito de andar de carona.

Tem vezes que nos levam de embalo pra um lugar estranho ou saudoso e é tão legal.

Há palavras que descrevem coisas que não existem, seres inventados e há coisas que sentimos e não cabem nas palavras, escorrem pelos dedos. 

 

Música! 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Vi-me a te ver

Não era noite, tampouco era frio. No silêncio da vigília, eu não me sentia solitário; pelo contrário.
De passagem, dei de cara contigo e me olhando tu sorria.
Falo sobre esse encontro ainda fresco: breve e satisfatório, de uma estética ainda não arruinada pelos afazeres do tempo que passa sem pensar.
Lembro daquela outra ocasião como se há pouco tivesse ocorrido, porque de fato nunca a esqueci por muito tempo.
Não é com saudade nem com nostalgia que penso naquele dia, aquela noite.
Que bom encontrar em ti um sorriso singelo e honesto, simplesmente aparente, claramente inevitável.
Sei bem das idas e vindas que passaram por nós nesses anos todos, quase treze. Sei dos desejos malnutridos que sobrevivem na surdina, esperando pelo momento em que serão aceitos e finalmente assumidos.
Vagueio em curiosidade sobre a possibilidade e até mesmo a idade que teremos na próxima vez que nos olharemos como hoje, reflexivos.
Em outra vida.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Refresco, brisa, novidade

Sedento por uma novidade, qualquer uma, olhava pela janela outra vez. Poderia sim alguém chegar, alguém chamar para ver o que estava acontecendo na rua. Poderia ocorrer um anúncio de meio frango na paróquia, promoção no supermercardinho, talvez até uma vaga de subemprego na indústria à beira da falência sua, mas não de seus donos.

O fato de que nada novo havia na última olhadinha não significa que na próxima não haveria de haver. Talvez alguma banda famosa lançasse um novo disco, ou um novo filme estivesse disponível nos confins dos catálogos.

Nada de novo de novo.

Tudo bem, esse dia iria passar e a noite traria descanso, algum entretenimento. Jogar um jogo, lavar uma louça, olhar jornal.

O fim de semana há de chegar e as promessas são muitas.

O fim do mês há de chegar e as esperanças são enormes.

O fim do ano vem chegando e o desespero bate à porta.

Em meio a largas janelas de poucas novidades, um pesado peso se abateu nas pálpebras, pesadas e enrugadas.

Mais uma década se arredonda para cima e os jovens não são mais jovens.

Mais uma palavra e a frase estaria

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Vinte e Seis

 Esse é o ano mais novo em que já vivi. É muito novo.

Não tenho certeza se foi 26 ou 27, mas um dia ao ler minha própria idade ser descrita, em uma notícia sobre algum absurdo cotidiano, notei que usavam a palavra homem em vez de jovem. Até então era um jovem de 22 anos cometeu latrocínio, um jovem de 25 atropelou duas velhinhas, um homem de 41 foi assaltado. De repente um homem de 26 ou 27 fez alguma coisa em algum lugar – e amanhã será como se nunca tivesse feito.

Esse blog já tem 16. É mais do que eu tinha quando escrevi meu livro, de tiragem limitada a 1 exemplar. É quase como se eu nunca o tivesse escrito.

Não mais um debutante, quase um maior-de-idade; um blog meio moribundo que ainda não morreu mas hiberna. Não sei sei dizer se se mantém vivo apenas por aparelhos. 

 Enfim, nada a declarar além de que o tempo passa. E esse ano resolvi não esperar tantos e tantos meses até movimentar um pouco isso aqui. Espasmo também é movimento, afinal. Risos. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Rua da Rosquinha

Aquela rua onde vendia as rosquinhas, uma ladeira seca de terra e vento, escorregadia e boa pra deslizar na descida, ela não existe mais. No lugar onde ficava hoje tem um asfalto duro escuro separando casas altas renovadas, de portões fechados e jardins cuidados por profissionais. A gurizada que pedalava a bici e empurrava de volta pra subir a lomba hoje tá cada um num carro, janela fechada, ouvindo notícia. Sobem e descem com o mesmo esforço, movimentos mecânicos. Na calçada ninguém mais brinca.

A rosquinha foi deixada pra lá, ou talvez virou empreendimento. Será que é um baita negócio, que começou do nada e hoje vende em tonelada?

Embaixo de todas essas ruas tem terra enterrada. Embaixo dessa cidade muita coisa aconteceu e a gente nem sabe, só pode imaginar, desconfiar. E agora tá tudo tapado, exceto por algumas frestas. Quando chove nem precisa muito, alaga facinho apesar das obras e vá valão. Mas falta espaço pra terra respirar, lixiviar. A chuva lava tudo mas o asfalto fica; sujo. O portão fecha automático e na calçada as crianças passam apressadas indo trabalhar, cabeça baixa, passo apertado, procurando não pensar no passado.

terça-feira, 11 de junho de 2024

O Inço

Tuc, tuc, tuc, tic, tuc, tuc
Graças a deus deu uma parada ein, deus me livre aqui ainda tamo com sorte, escapamo, é
Tuc, tuc, tic, volta e meia a enxada erra o inço e acerta o asfalto puro, ou o concreto do meio-fio
Que tristeza toda vida agora isso, onde vamo parar desse jeito, e os político não fazem nada, nada nada
Tuc, tuc, tuc, clap, um estalo diferente ressoa no intervalo das enxadas. Não são palmas, ninguém na rua aplaude a obra deste trabalhadores: um tapa erra o mosquito e acerta a própria perna
Uh diabo, isso tá cheio ein, agora veio dá pra cá essa merda, deus me livre nunca vi tanta água!
O pequeno demônio voa furtivo e ataca de novo em outra parte, indefensável; não chega a ser visto mas sua presença é notada, sentida; cada trabalhador nas ruas se sente sugado sem saber como se defender.
O inço vai sendo partido golpe a golpe, sem pressa, num progresso que quase não se enxerga. Enquanto isso, o ônibus da turma arranca e para mais adiante, lá na esquina.
O inço é derrotado mas só na superfície; é pouca a terra que se enxerga na sarjeta e a maldita raiz desta praga está protegida. Lá embaixo do asfalto e da calçada, ela sobrevive, apesar da sua fragilidade e podridão, apenas por força dessa estrutura que a cerca.
Volta e meia a enxada risca o concreto e o barulho muda o rumo da conversa.
Eu penso sobre deuses e patrões, enquanto não participo da conversa, se é que ela existe, mas observo de longe, alheio. Compartilhamos alguns metros da cidade, alienados uns dos outros.
Sufocados pelo inço que nos cerca, pelo mosquito que nos suga. Nada mais do que arranhando a superfície e sentindo a dor nas costas.
A patrola grunhe, resmunga e ronca rouca do outro lado da rua: é hora de avançar.
Vamo lá, gurizada

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Sobreviver pra viver depois, depois que tudo ficar bem, o momento que nunca virá... Acompanhado por diversos nadas, decorações de palavras bonitas de uma grande câmara de eco, de uma conexão com o vazio. Com nada. Depois de tanto buscar nos únicos lugares errados que restam, grandes desertos a céu aberto repletos de lixo... pessoas como figuras patéticas de miseráveis catadores, terminando de juntar o que sobrou do céu. Pés molhados de ter de caminhar nas próprias lágrimas de lembrar que um dia ouviu que a vida era mais do que humilhação. Mais um episódio de malhação, na academia financeira.
Sobrevivendo enquanto ainda restam as lembranças das vezes que a ficha não caiu. O dia que as lembranças se forem, pode dormir pra não mais acordar.
Esperança. Sobreviver a custo de quê?