A primeira garfada faminta no jantar,
primeiro sopro de um outono refrescante
primeiro gole sedento em um gélido chope
Nada como a primeira ficção de se que se lembra,
aqueles atores míticos que jamais serão substituíveis
Cenas marcantes cravando-se em um jovem terreno mental,
antes de tudo que ainda virá e será nada mais que,
posso dizer, alguma repetição mais ou menos alterada
Os primeiros quilômetros de estrada,
depois de mil semanas parados em casa
A primeira queda de braço vencida em um novo trabalho
e o primeiro esquecimento
do que eu tinha que falar hoje, mesmo?
Em meio a tantas novidades que perdem o brilho com o costume,
vivem algumas sensações inacostumáveis
Cem mil horas de carinho não bastam
Cada beijo é um surpreendente anseio
Um incrível fermento existe na saudade,
que cresce enormemente em intervalos tão curtos
Impresso em um olhar eternamente revigorante
O amor é sempre novo
sábado, 11 de setembro de 2021
Novidades
sábado, 28 de agosto de 2021
O MACACO ASTRAL SE SENTE MAL
Com o melindre ao seu redor
Com o macaco no galho vizinho
Com a falta de perspectiva
Com a ausência da humanidade
O MACACO ASTRAL SE SENTE MAL
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Parecer
Soava fúnebre para alguém tão cheio de vida. Alguém que jamais parecesse cabisbaixo, lamuriando a própria má-sorte. Pelo contrário: entre produções, posturas e poses para fotografias, construía a imagem mais inimaginavelmente positiva e de constantes alegrias que eram interrompidas apenas pelo gozo seguinte. “O quê?, não parece a mesma pessoa”, seria a possível legenda de um olhar que o encontrasse pela rua, inesperadamente, indo de um escritório a um consultório.
Diante do laudo médico, a recepção foi de surpresa. Márcio sempre se considerou alguém de bem – com a vida e tudo mais que lhe cruzava o caminho. Alguém do bem, também. Responsável, caridoso. Ninguém tinha um piu para falar sobre ele. Não na sua frente, pelo menos.
Escolado e vivido, marcado pelo tempo, o doutor aceitava tudo com a cabeça e um fino sorriso abaixo dos óculos. Não havia paciente que não se explicasse diante do diagnóstico. “Nunca tive problema algum, jamais suspeitaria”. Mas era exato, era ciência. E fazer aqueles exames sempre tem a chance do imprevisível. É como pescar em águas turvas, disse.
O grande problema, seguiu na explicação, era que o jovem Márcio vivia numa duplicidade inconciliável. O brilho que se pode enxergar sobre sua vida fragmentada não bate com a respiração pesada e o suspiro que lhe escapa no apagar das luzes, nunca antes notado. Isso veio à tona apenas nos caros exames que, repita-se, nunca falham e, por sorte, são cobertos pelo plano de saúde da companhia. Esse desencaixe entre sentidos produziu um desgaste que passou de uma leve perturbação a insatisfação constante. Como uma dentadura mal ajustada, explicou o doutor.
“E tem tratamento?” Só com internação. E tem que ser voluntária. Conversariam melhor dali a duas semanas. Que pensasse no assunto, discutisse com a família. “Claro, doutor. Família em primeiro lugar”. O médico apenas sorriu em resposta, sem abrir a boca. Continuou sorrindo enquanto redigia e assinava um atestado, pra apresentar na empresa. Lendo o papel recém produzido, o paciente protestou: “Doutor, meu nome não é Márcio, é Claiton”.
Me perdoe, disse o velho psiquiatra, é que você não tem cara de Claiton.
segunda-feira, 19 de julho de 2021
Febre
O corpo é quente, é calor. Mas sinto frio.
Febril.
É calor, mas não esquenta. Minha tremedeira me impede de decorar essas paredes velhas de meu casulo, minha única propriedade. Só o que posso chamar de meu, sem ser uma moçoila soberba de nariz empinado.
Eu ouço os gritos desesperados do lado de fora, mas a mim só restam pombos mensageiros feridos que sempre perdem a mensagem no caminho, me trazendo os restos, as migalhas.
Mas é isso. Se estou triste, choro. Se não estou feliz, finjo aquele sorriso que pode até ser bonito, atrás de uma porção de palavras mal ditas. Quando não mordo a língua.
A vida é um sonho. Passageiro. Hoje a noite sei que vou dormir mal.
Acordar de susto várias vezes, com o coração disparado. Um nó na garganta. Aquele vai-e-vem de sempre, desde que me conheço gente, que nunca consegui explicar. Vários sonhos ruins dentro de um mesmo.
Dizem que estou na linha de frente, então sou soldada.
E este é meu lado.
Não tem mais ninguém aqui além de mim, não teria como ter.
Essa é minha página inicial.
Meu troco. alguns centavos na discussão.
A minha era. Uma macaca entediada entre muitos nesse grande bando.
Não dura muito não. Eu sei que às vezes é só um suspiro.
É pouco, é quase nada. Quando você percebe o auge, já passou.
Tentei gritar, mas não tinha ninguém pra me ouvir.
Não importa.
Nunca importou.
terça-feira, 13 de julho de 2021
Paz interior
Desenho a minha própria tranquilidade como uma pequena torta
porção individual
Não há lâmina fina o suficiente para dividi-la sem a destruir
Enquanto a degusto, ainda apenas com o olhar
ela se derrete à minha frente
lentamente se tornando nada mais que uma mancha no prato
De pernas cruzadas e lábios espremidos
fico imaginando o sabor que ela teria
quando finalmente eu a provasse
quinta-feira, 13 de maio de 2021
O MACACO ASTRAL SE REPETE
No turbilhão de informações conflitantes
Olhando para o sol por tempo indeterminado
No brilho de uma ideia que é incapaz de entender
portanto necessita destruir
O MACACO ASTRAL SE REPETE
O MACACO ASTRAL SE OFUSCA
No turbilhão de informações conflitantes
Olhando para o sol por tempo indeterminado
No brilho de uma ideia que é incapaz de entender
portanto necessita destruir
O MACACO ASTRAL SE OFUSCA