Fui jovem.
Estou velho.
Minha perna direita treme. Uma vez era pelo chão frio da calçada. Hoje é por nada.
Longe se foram os dias de festa do mutirão. Os dias das empreitadas, empadas, mandiocadas. Até galinhada.
Mas não reclamo porque lembro do Antônio. Pobre infeliz morreu sem por quês, não morreu de velho. Morreu de velha. A velha mania das pessoas fazerem as coisas sem motivo, sem saber.
Isso já faz tempo.
Tempo faz também em que minha mãe morreu apedrejada, também na calçada. Mas que marmelada.
Uma tragédia na verdade. Mas ela não era muito bonita, nem tinha maneiras refinadas. Era como eu, comia com as mãos. Se coçava com os pés. Tinha cheiro de chuva e por isso pouco importava.
Ao passo que passa, já não mais passo aí. Me faltam as forças. Já se foram os dias de guri.
Vou pra dentro da minha casa, ali debaixo do pé de manga. O antigo local onde encontrava meus camaradas. Gritávamos para as máquinas a passar. Máquinas de passeio.
A minha casa fica na rua, porque das ruas eu sempre serei.
Dimes meu nome.
Um último gemido suspirado.
Uma prova de que não há nada de errado.
Em celebrar uma vida simples.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
M.I.F.O.
Cinquenta. Um. Um e cinquenta. Dois.
E se acabaram as moedas, simples assim.
O aperto de um botão, uma máquina zunindo. Da repetição ao vício. Lá e de volta outra vez.
Mesmo papo furado, mesmas pessoas, diferentes semblantes.
Talvez eu devesse comprar um par de peitos. O sorriso eu já tenho. Talvez a bunda também.
É, acho que só faltaria o par de peitos. E a pele bronzeada. Passar um tempo dentro de uma outra máquina pra sair com a aparência de ter pego sol. Que é tipo fabricar em laboratório uma carne para honrar as tradições sem porquê, sem saber. Haha. É. Mais uma risada falsa seu idiota. De toda forma não passo de uma piada ruim, sei disso.
Como se eu já não pegasse sol o suficiente. Sol que me torra. Certamente gostaria de parecer mais bonita, talvez não por vontade própria. Só não quero pegar câncer, então continuo meio branca.
Ir tomar um 'chima na redença', encontrar todo tipo de gente, todo o tipo de igualdade. Parece que são todos iguais. É tudo muito 'zueiro'.
Deixemos a seriedade para depois. Depois quando?
No velório talvez. Ou quando for da própria conveniência.
No hospital se pensa que normalmente é tudo muito sério. Ai de quem falar o contrário.
Mal sabem.
Esperar a sexta-feira pra repetir o bordão já batido. E continuar fingindo que tá tudo bem.
A seriedade da realidade é demais. É muito. É preciso adquirir muita coisa pra poder tapar a visão direta, nojenta.
Mas eu sei. Eu sei que isso tudo é pra bonito.
Te daria um abraço movido por compaixão se eu não estivesse puta da cara.
De qualquer forma um abraço não te ajudaria em nada, já que tu tem que ver por si só.
Sozinho. Nu.
Não. Eu não sei como resolver.
Só tento fugir e não consigo.
E se acabaram as moedas, simples assim.
O aperto de um botão, uma máquina zunindo. Da repetição ao vício. Lá e de volta outra vez.
Mesmo papo furado, mesmas pessoas, diferentes semblantes.
Talvez eu devesse comprar um par de peitos. O sorriso eu já tenho. Talvez a bunda também.
É, acho que só faltaria o par de peitos. E a pele bronzeada. Passar um tempo dentro de uma outra máquina pra sair com a aparência de ter pego sol. Que é tipo fabricar em laboratório uma carne para honrar as tradições sem porquê, sem saber. Haha. É. Mais uma risada falsa seu idiota. De toda forma não passo de uma piada ruim, sei disso.
Como se eu já não pegasse sol o suficiente. Sol que me torra. Certamente gostaria de parecer mais bonita, talvez não por vontade própria. Só não quero pegar câncer, então continuo meio branca.
Ir tomar um 'chima na redença', encontrar todo tipo de gente, todo o tipo de igualdade. Parece que são todos iguais. É tudo muito 'zueiro'.
Deixemos a seriedade para depois. Depois quando?
No velório talvez. Ou quando for da própria conveniência.
No hospital se pensa que normalmente é tudo muito sério. Ai de quem falar o contrário.
Mal sabem.
Esperar a sexta-feira pra repetir o bordão já batido. E continuar fingindo que tá tudo bem.
A seriedade da realidade é demais. É muito. É preciso adquirir muita coisa pra poder tapar a visão direta, nojenta.
Mas eu sei. Eu sei que isso tudo é pra bonito.
Te daria um abraço movido por compaixão se eu não estivesse puta da cara.
De qualquer forma um abraço não te ajudaria em nada, já que tu tem que ver por si só.
Sozinho. Nu.
Não. Eu não sei como resolver.
Só tento fugir e não consigo.
Separados por vírgulas
1984,
Aonde leva essa loucura?,
júlia,
sol
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Debaixo do sol IV
Realmente quando há a moda o indivíduo some. Porque parece que todo mundo é igual dentro de uma mesma onda de um mesmo mar de gente. A coletividade nos empurra a fazer coisas estúpidas, tipo ser igual para ser feliz. Não me diga que não é assim. Por favor.
Nunca havia entendido o abrigo artificial da felicidade por trás das fotos de sorrisos e aparência de bem-viver permanente. Mas posso entender quando bebo um café com açúcar ou quando fumo um cigarro em um dia cinzento prestes a chover.
Bato de frente, certamente, e me debato em vão desespero. Pois o que vejo nada mais é do que a mim mesma em outras faces.
Como pessoa, ainda me reservo o direito ao desgosto.
"I just believe in myself 'cause no one else is true"
Uma chuva de verão. Um chove e não molha, uma chuva que causa a falsa sensação de alívio e frescor para logo em seguida o sol voltar com o dobro do calor.
E que tarde quente.
Posso sentir o calor da rua aqui dentro do hospital no "ar condicionado". Um nome mal colocado, para não dizer errôneo.
Posso sentir o calor na minha cabeça, na fala alheia e no olhar minguante dos doentes.
Bem que o calor poderia derreter também a falsa esperança, as máscaras comerciais e as prisões alegres.
Nunca havia entendido o abrigo artificial da felicidade por trás das fotos de sorrisos e aparência de bem-viver permanente. Mas posso entender quando bebo um café com açúcar ou quando fumo um cigarro em um dia cinzento prestes a chover.
Bato de frente, certamente, e me debato em vão desespero. Pois o que vejo nada mais é do que a mim mesma em outras faces.
Como pessoa, ainda me reservo o direito ao desgosto.
"I just believe in myself 'cause no one else is true"
Uma chuva de verão. Um chove e não molha, uma chuva que causa a falsa sensação de alívio e frescor para logo em seguida o sol voltar com o dobro do calor.
E que tarde quente.
Posso sentir o calor da rua aqui dentro do hospital no "ar condicionado". Um nome mal colocado, para não dizer errôneo.
Posso sentir o calor na minha cabeça, na fala alheia e no olhar minguante dos doentes.
Bem que o calor poderia derreter também a falsa esperança, as máscaras comerciais e as prisões alegres.
Separados por vírgulas
1984,
júlia,
Sorrisos de lábios cerrados,
under the sun
sábado, 11 de fevereiro de 2017
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Morrência
Tive um sonho, onde todas as coisas ruins se juntaram. Um "sonho", comumente chamado de pesadelo. Do pior tipo, que tu acorda não de susto, mas de desânimo, com a impressão de que é um dia a menos, e não a mais, de vida. Um ano a menos.
E na verdade é... Mas a realidade é pesada demais pra se suportar sem defesas, sem remédios. O remédio não deixa de ser uma desculpa esfarrapada que tu finge acreditar pra poder continuar seguindo. Tu e toda a sociedade.
Que droga. Acordei com dor de cabeça. Cólica também. Não basta a sensação horrível do sonho.
O café está quase pronto, minha segunda droga favorita. Só que hoje ele é sem gosto. Mesmo se eu colocar açúcar, a outra droga. Tudo isso para produzir uma sensação artificial de felicidade, extremamente passageira.
O sol deve estar forte, um calor de matar. E mata aos poucos, tipo fazer aniversário, se morre aos poucos cada dia, mas a realidade é forte demais, então precisamos de uma desculpa.
Queria eu não estar nessa onda, mas da última vez que enfrentei a realidade levei uma surra. Me lembrou uma vez que meu pai me bateu com um fio de energia elétrica. A surra do fio de energia passa. Já a realidade está ali constantemente, espreitando, esgueirando, esperando a máscara cair.
No dia que meu pai me deu uma surra eu tinha ficado muito braba. Me senti humilhada.
Hoje eu sinto saudades.
E na verdade é... Mas a realidade é pesada demais pra se suportar sem defesas, sem remédios. O remédio não deixa de ser uma desculpa esfarrapada que tu finge acreditar pra poder continuar seguindo. Tu e toda a sociedade.
Que droga. Acordei com dor de cabeça. Cólica também. Não basta a sensação horrível do sonho.
O café está quase pronto, minha segunda droga favorita. Só que hoje ele é sem gosto. Mesmo se eu colocar açúcar, a outra droga. Tudo isso para produzir uma sensação artificial de felicidade, extremamente passageira.
O sol deve estar forte, um calor de matar. E mata aos poucos, tipo fazer aniversário, se morre aos poucos cada dia, mas a realidade é forte demais, então precisamos de uma desculpa.
Queria eu não estar nessa onda, mas da última vez que enfrentei a realidade levei uma surra. Me lembrou uma vez que meu pai me bateu com um fio de energia elétrica. A surra do fio de energia passa. Já a realidade está ali constantemente, espreitando, esgueirando, esperando a máscara cair.
No dia que meu pai me deu uma surra eu tinha ficado muito braba. Me senti humilhada.
Hoje eu sinto saudades.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Heróis
Não tenho vergonha de confessar que ainda procuro todos aqueles heróis da minha infância.
Onde foram parar?
A sensação de nostalgia, a boa sensação de que existe algo de bom em algum lugar, e principalmente de que tudo vai dar certo no final. Que final?
No fundo eu não deveria gostar deles, afinal, eles serviram pra esconder muita coisa de mim, o choque de realidade aumenta quando tu percebe como o mundo vai se revelando. Em tons de cinza, geralmente escuros.
Meu pai foi o meu primeiro herói. E é um pulinho pra encontrar ele novamente, basta ir até São Chico. Só que assim como os outros, ele já deixou de ser um herói faz muito tempo. Mais precisamente quando eu tinha onze anos ou antes. Hoje ele é só o meu pai, uma pessoa normal, sem super poderes, mortal e frágil. Como todas as pessoas.
Queria muito voltar a ver o mundo como era antes. Ou isso seria querer voltar a ser estúpida e ignorante?
Há quem diga que os médicos e as enfermeiras são os heróis do mundo. Então por que tanta gente pede ajuda pra deus? O deus super-herói, super homem, cujo super poder é usar as pessoas para operar seus milagres. Ora, isso eu também posso fazer.
Não me sinto heroína, a menos que você esteja se referindo àquela droga. Já posso ter sido a heroína de alguém nesse sentido. É difícil de ver a própria toxicidade.
Dia após dia vamos fingindo que está tudo certo.
Noite após noite o amor vai ficando cinzento e aquele brilho no olhar vai se apagando sem que alguém dê importância. Como aquelas estrelas no céu que somem para todo o sempre sem que alguém note. Sempre sobra alguma outra.
Talvez esse seja o mal da coletividade. Sempre tem outra pessoa quando alguém morre, nos cegando quanto à beleza da especialidade de cada um. Basta ver o noticiário, que divide os grupos entre ricos e pobres. Como os pobres são maioria, geralmente são tratados com menos importância.
Esperar o que, de uma sociedade que diz que o policial é herói quando mata e o médico é herói quando salva.
Onde foram parar?
A sensação de nostalgia, a boa sensação de que existe algo de bom em algum lugar, e principalmente de que tudo vai dar certo no final. Que final?
No fundo eu não deveria gostar deles, afinal, eles serviram pra esconder muita coisa de mim, o choque de realidade aumenta quando tu percebe como o mundo vai se revelando. Em tons de cinza, geralmente escuros.
Meu pai foi o meu primeiro herói. E é um pulinho pra encontrar ele novamente, basta ir até São Chico. Só que assim como os outros, ele já deixou de ser um herói faz muito tempo. Mais precisamente quando eu tinha onze anos ou antes. Hoje ele é só o meu pai, uma pessoa normal, sem super poderes, mortal e frágil. Como todas as pessoas.
Queria muito voltar a ver o mundo como era antes. Ou isso seria querer voltar a ser estúpida e ignorante?
Há quem diga que os médicos e as enfermeiras são os heróis do mundo. Então por que tanta gente pede ajuda pra deus? O deus super-herói, super homem, cujo super poder é usar as pessoas para operar seus milagres. Ora, isso eu também posso fazer.
Não me sinto heroína, a menos que você esteja se referindo àquela droga. Já posso ter sido a heroína de alguém nesse sentido. É difícil de ver a própria toxicidade.
Dia após dia vamos fingindo que está tudo certo.
Noite após noite o amor vai ficando cinzento e aquele brilho no olhar vai se apagando sem que alguém dê importância. Como aquelas estrelas no céu que somem para todo o sempre sem que alguém note. Sempre sobra alguma outra.
Talvez esse seja o mal da coletividade. Sempre tem outra pessoa quando alguém morre, nos cegando quanto à beleza da especialidade de cada um. Basta ver o noticiário, que divide os grupos entre ricos e pobres. Como os pobres são maioria, geralmente são tratados com menos importância.
Esperar o que, de uma sociedade que diz que o policial é herói quando mata e o médico é herói quando salva.
Separados por vírgulas
1984,
heróis,
júlia,
sociedade doente
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Entre sorrisos e máscaras
Eu já havia gostado da sensação de ajudar.
Um brilho misterioso que vai pulando, achando vários e diferentes lares em vários rostos, ou máscaras. A sensação até era boa, não nego.
Acontece que a repetição e o costume dão nascimento ao enfado. Ver sangue não era um problema pra mim, nunca foi. Não falo apenas do líquido vermelho que dá sustentação para a vida.
Um plantão depois do outro e tu nem se importa mais. Uma vida a mais ou a menos. Afim de se perguntar: Há fim?
Eu quase me arrependia de ter trocado o plantão de sexta com a Aline. A sexta feira, a feira santa, dos artigos raros e de celebridades falidas, produzidas. Onde se troca uma vida inteira de esperas por um momento ínfimo, impermanente, de alegria líquida e sem sentido. Da mesma forma que era irônico que eu gostasse da Aline, era irônico que eu também precisava desse momento de alegria líquida. No entanto eu sempre pensei que me diferenciava de alguns tantos de pessoas, por perceber que isso era uma roubada. Como dizia um amigo meu distante, não basta saber.
Era de se estranhar uma correria relativamente cedo da noite, pouco depois do início dos trabalhos do pessoal de folga, afogando tristezas nas mesas de bar. Mas aqui em Porto Alegre não era estranho. Falta de segurança pública, problema do qual desde que me conheço por gente as pessoas clamam e reclamam.
Mas naquela noite era um rapaz um pouco mais bem ajeitado, desses que deixam os pais em casa em preocupação enquanto que ele sai com o carro para a noite.
Mais novo que eu, com um buraco no ombro. Certamente um disparo.
Com ele vinha uma guria um tanto esquisita, tanto quanto imaginar em uma cena aqueles dois juntos.
Não que eu goste do sofrimento alheio, mas chegava a ser engraçado, parecia mãe drogada com um bebê de rosto sofrível como se nunca houvesse solução para nada.
Limitei-me a rir brevemente por dentro para em seguida me portar como manda os bons costumes e a direção geral do hospital. O que aconteceu?
Já me preparando para dar o devido atendimento. Aquela cara de lunática, cabelos cacheados bagunçados, me encarando enquanto eu pensava em perguntar de novo, caso ela estivesse viajando.
Baleado. Assalto. Perto do Opinião.
Não é o primeiro, não vai ser o último. Chamei o Paulo e o Quevedo para darmos o encaminhamento na sala de emergência.
Marcos Silva teria sido mais um nome nas manchetes ou nem isso. Provavelmente seria, ele não parecia da periferia para ser tratado apenas como mais um número.
Agora remendado e em observação.
Ou salvação, caso passassem aquelas senhoras que eu tanto odiava pra ficar rezando ou pedindo pra deus cuidar dos feridos. Bastava me pedir ajuda, e nem isso, pois já faço isso de rotina, sem que ninguém precise me pedir, é o meu trabalho. Mas acho que é melhor pedir ajuda pra um super-homem-deus-macho que não existe do que pra uma reles-simples-mortal guria-moça-mulher que está ali do teu lado. E ainda há quem diga que eu preciso respeitar a fé alheia, ainda que o respeito não seja recíproco. Eis aí uma das razões pelas quais os dias vão ficando cinzentos.
Vi na sala de espera aquela moça que tinha vindo com o rapaz ferido. Ela parecia alguém legal, se não legal, pelo menos autêntica. Ou era uma máscara nova que eu ainda não tinha visto. Interessante, portanto.
Parecia estar tendo um dia daqueles, aparente cabeça cheia e latejante.
Ofereci uma aspirina e recebi um sorriso. Daqueles que te deixam na obrigação de imitar.
E o meu sorriso ainda era uma imitação, era só pra dar sustento aos bons costumes, sustentar a máscara de cirurgias plásticas morais e implantes de felicidade.
Tipo a máscara do cara do comercial.
Eu não poderia mostrar o buraco atrás da máscara para qualquer um.
Um brilho misterioso que vai pulando, achando vários e diferentes lares em vários rostos, ou máscaras. A sensação até era boa, não nego.
Acontece que a repetição e o costume dão nascimento ao enfado. Ver sangue não era um problema pra mim, nunca foi. Não falo apenas do líquido vermelho que dá sustentação para a vida.
Um plantão depois do outro e tu nem se importa mais. Uma vida a mais ou a menos. Afim de se perguntar: Há fim?
Eu quase me arrependia de ter trocado o plantão de sexta com a Aline. A sexta feira, a feira santa, dos artigos raros e de celebridades falidas, produzidas. Onde se troca uma vida inteira de esperas por um momento ínfimo, impermanente, de alegria líquida e sem sentido. Da mesma forma que era irônico que eu gostasse da Aline, era irônico que eu também precisava desse momento de alegria líquida. No entanto eu sempre pensei que me diferenciava de alguns tantos de pessoas, por perceber que isso era uma roubada. Como dizia um amigo meu distante, não basta saber.
Era de se estranhar uma correria relativamente cedo da noite, pouco depois do início dos trabalhos do pessoal de folga, afogando tristezas nas mesas de bar. Mas aqui em Porto Alegre não era estranho. Falta de segurança pública, problema do qual desde que me conheço por gente as pessoas clamam e reclamam.
Mas naquela noite era um rapaz um pouco mais bem ajeitado, desses que deixam os pais em casa em preocupação enquanto que ele sai com o carro para a noite.
Mais novo que eu, com um buraco no ombro. Certamente um disparo.
Com ele vinha uma guria um tanto esquisita, tanto quanto imaginar em uma cena aqueles dois juntos.
Não que eu goste do sofrimento alheio, mas chegava a ser engraçado, parecia mãe drogada com um bebê de rosto sofrível como se nunca houvesse solução para nada.
Limitei-me a rir brevemente por dentro para em seguida me portar como manda os bons costumes e a direção geral do hospital. O que aconteceu?
Já me preparando para dar o devido atendimento. Aquela cara de lunática, cabelos cacheados bagunçados, me encarando enquanto eu pensava em perguntar de novo, caso ela estivesse viajando.
Baleado. Assalto. Perto do Opinião.
Não é o primeiro, não vai ser o último. Chamei o Paulo e o Quevedo para darmos o encaminhamento na sala de emergência.
Marcos Silva teria sido mais um nome nas manchetes ou nem isso. Provavelmente seria, ele não parecia da periferia para ser tratado apenas como mais um número.
Agora remendado e em observação.
Ou salvação, caso passassem aquelas senhoras que eu tanto odiava pra ficar rezando ou pedindo pra deus cuidar dos feridos. Bastava me pedir ajuda, e nem isso, pois já faço isso de rotina, sem que ninguém precise me pedir, é o meu trabalho. Mas acho que é melhor pedir ajuda pra um super-homem-deus-macho que não existe do que pra uma reles-simples-mortal guria-moça-mulher que está ali do teu lado. E ainda há quem diga que eu preciso respeitar a fé alheia, ainda que o respeito não seja recíproco. Eis aí uma das razões pelas quais os dias vão ficando cinzentos.
Vi na sala de espera aquela moça que tinha vindo com o rapaz ferido. Ela parecia alguém legal, se não legal, pelo menos autêntica. Ou era uma máscara nova que eu ainda não tinha visto. Interessante, portanto.
Parecia estar tendo um dia daqueles, aparente cabeça cheia e latejante.
Ofereci uma aspirina e recebi um sorriso. Daqueles que te deixam na obrigação de imitar.
E o meu sorriso ainda era uma imitação, era só pra dar sustento aos bons costumes, sustentar a máscara de cirurgias plásticas morais e implantes de felicidade.
Tipo a máscara do cara do comercial.
Eu não poderia mostrar o buraco atrás da máscara para qualquer um.
Separados por vírgulas
1984,
Caos na saúde pública,
Há deus?,
júlia,
Máscaras,
melissa,
vampiro - a máscara
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